Os Nossos Amigos

sexta-feira, março 27, 2009

O meu filho preferido


Embora os pais digam sempre que gostam de todos os filhos da mesma maneira, isso nem sempre é inteiramente verdade.
Não é por mal, mas há razões que só o coração conhece.

Habituados a partilhar o mesmo espaço, as atenções, as brincadeiras e o amor dos pais desde que nasceram, juntos nos testemunhos das crises e alegrias familiares, dia após dia ao longo dos anos, os irmãos são uma forte corrente na teia complexa de afectos que é a família. A forma como gostam e se relacionam uns com os outros depende da maneira como foram amados, das preferências inconfessadas, cumplicidades ou distâncias vividas com o pai e com a mãe, às vezes mais sentidas do que percebidas.

O que é verdade é que esses primeiros anos da infância e a forma como foram vividos afectivamente têm influência na relação entre irmãos e, ainda, na maneira como cada filho sente o amor dos pais, sentimento esse que pode variar muito dentro da mesma família.

Logo que o primeiro filho deixa de ser único, todo o quadro afectivo se transforma, reorganizando-se de forma a tornar irreconhecível o triângulo inicial – pai, mãe e filho – uma situação, aliás, irrepetível. A chegada de um segundo filho tem a vantagem de vir renovar um prazer iniciado, permitindo voltar a viver as satisfações da paternidade, mas agora de uma forma mais confortável e tranquila. Há muitos pais que optam ainda pela vinda de um terceiro, às vezes de um quarto filho, para não falar dos que não resistem às grandes, mas já raras, proles de seis, sete ou mais crianças.
Para muitos, é um prazer e uma segurança verem-se rodeados de filhos, como se a multiplicação lhes permitisse, de alguma maneira, tomar contacto com o milagre da eternidade.


SER O PRIMEIRO É SER ESPECIAL

É comum atribuir ao primeiro filho características particulares que alguns psicólogos relacionam com o facto de este ser, precisamente, o primeiro.

Ao colocar os pais numa situação de esmagadora novidade, a primeira criança sofre na pele as consequências desse facto, com todos os benefícios e prejuízos que daí decorrem.

O amor em primeira mão, total em cuidados e afectos, coexiste com a angústia de uma situação completamente nova, o medo do desconhecido e o peso de uma súbita responsabilidade até aí inexistente e que, agora, passará a fazer parte do dia a dia dos pais.

Assim, constata-se muitas vezes, embora com excepções, que o primeiro filho é mais inseguro, mais tímido ou até mais nervoso que o segundo. Pode também, pelo contrário, ser mais responsável ou mais adulto, mas é sempre «especial». Muitas vezes com uma forte ligação à mãe, especialmente no caso de ser rapaz. E, provavelmente, terá ciúmes do irmão que vier a seguir.

De facto, nada voltará a ser como era antes.

O nascimento de um filho, entre outras coisas, tem o poder transformador e infinito que consiste em revelar uma série de novos, às vezes inesperados, sentimentos e comportamentos. Parecendo surgir do nada, estes trazem à luz do dia outras dimensões da personalidade dos pais, até aí insuspeitas.

Porquê? Porque os filhos são o espelho de nós próprios e da nossa própria infância, com toda a força e importância que advêm desse facto fundamental. Conhecê-los, vê-los crescer, acompanhar o seu desenvolvimento é conhecermo-nos e, de certa forma, termos a oportunidade de com eles crescer mais um pouco.

Esta espécie de renascimento é um processo que se inicia com o primeiro filho, mas que se vai desenvolvendo e enriquecendo à medida que nascem os outros. A cada novo filho, aumenta a capacidade de nos revermos em mil variações e composições que nos devolvem uma imagem enriquecida de nós próprios, com defeitos e qualidades, além da oportunidade de fazer alguns acertos.

É bom ter ao nosso alcance a possibilidade infinitamente criativa que é ter filhos e, através deles, viver todas as mudanças e transformações alquímicas, até aí imagináveis, de forma a nos tornarmos, eventualmente, pessoas mais fortes e responsáveis, seguramente mais conhecedoras de certas verdades.

O FILHO QUE SE SEGUE

O nascimento de um irmão ou de uma irmã leva a que o filho ou filha mais velhos vivam a primeira das mais dolorosas experiências das suas vidas.

Pela primeira vez, toma-se contacto com o sofrimento a sério e inicia-se um processo de crescimento interior, com todas as mágoas e compensações que o mesmo implica.

Diga-se o que se disser, nada evita a dor dos ciúmes, mais ou menos evidentes, mas sempre reais.

Além disso, do comportamento dos pais face a este novo acontecimento vai depender, por um lado, a relação que se irá estabelecer entre os dois irmãos pela vida fora e, por outro, a própria relação entre pais e filhos.

Costuma-se dizer que o segundo filho pode ser mais tranquilo, mais seguro e desembaraçado, uma vez que «absorveu» menos ansiedade e beneficiou de mais experiência maternal e paternal.

RAZÕES QUE SÓ O CORAÇÃO CONHECE

Não se gosta de todos os filhos da mesma maneira e o amor que os pais dão a cada um, embora não possa ser medido, é diferente na sua essência.

Por mais que os pais digam que não e por menos conscientes que estejam acerca desse facto.
Cada filho é único nas suas características e a relação que os pais têm com ele depende de factos e circunstâncias que escapam ao controlo da consciência.

E que têm a ver com o que existe de mais íntimo e essencial em cada um de nós, muitas vezes escondido no fundo escuro das memórias afectivas.

Embora a relação entre uma criança e os pais comece durante a gravidez, é só depois do nascimento que vai evoluir e definir-se.

À medida que o bebé cresce, vão surgindo afinidades e diferenças, psíquicas e físicas, com o pai ou com a mãe, numa infinidade de combinações que irão estar na base de uma forte cumplicidade ou, pelo contrário, de uma dura rejeição.


Toda esta questão, que envolve a aproximação e a rejeição, ou um misto das duas, é um processo inerente à maternidade e à paternidade, em que a identificação e a projecção são mecanismos psíquicos involuntários, comuns e naturais em todas as pessoas. Levam-nos de volta à nossa própria infância, fazendo-nos reviver esse passado através dos nossos próprios filhos. Identificamo-nos com eles e neles projectamos muitas das nossas inseguranças, medos, alegrias, desejos.

O movimento global de identificação com os filhos pode desencadear preferências, num processo quase sempre involuntário, pois obedece a impulsos vindos do fundo de nós mesmos. Isso não significa que não provoquem sentimentos dolorosos nas «vítimas» desta injustiça: os filhos preteridos. Dolorosos e incompreensíveis, na maior parte dos casos. Susceptíveis de serem literalmente arrastados pela vida fora, como espinhos cravados no coração.

À laia de conclusão, o fundamental é que qualquer filho se sinta incondicionalmente amado pelos pais, sejam quais forem as suas características, sem nunca se sentir culpado por ser diferente, por não ter as sardas da mãe, os olhos do pai ou a bom feitio do irmão mais velho.

5 comentários:

Ana Santos disse...

Gostei do artigo.
Pois como tenho 2 filhos , noto que o mais velho é mais tímido, mais inseguro, mas muito responsável.
Também teve ciúmes com a chegada do irmão, tinha apenas 25 meses.
Tento não fazer distinções, mas cada pessoa tem as suas características próprias, logo poderá haver tendencia de se gostar mais de um de que de outro.
Se me perguntarem de qual dos 2 gosto mais? Não sei responder. Só sei que gosto dos dois com as características que cada um tem.
Beijinhos,
Ana e seus tesourinhos

Sarita disse...

Adorei o tema!! Acho que apesar de uma grande maioria dizer que não faz a distinção dos filhos, acaba por fazer, não quer dizer que seja propositado, mas mesmo intencionalmente acaba por o fazer. Estou grávida do primeiro, não poderei falar por experiencia propria, mas por situações vividas ao longo da minha vida (não é o meu caso, porque sou filha unica) e que ainda continuam nos dias de hoje, em que vejo familiares a serem preteridos, em função dos irmaos.
Tentarei nunca o fazer, até porque como referi, presenciei essa situações, mas.......

Beijinhos

Sonia-mae dos reguilas disse...

sinceramente não consigo concordar com este artigo...se os amo exatamente da mesma forma? não nao amo-cada um tem as suas caracteristicas-mas amo-os com o mesmo peso e medida- tento ter momentos com cada um a sós porque é importante eles sentirem-se unicos -

Maria disse...

É um tema bastante interessante este. Pessoalmente, não amo cada um dos meus filhos da mesma forma, não é possivel fazê-lo porque eles são 6 seres diferentes, com caracteristicas que os diferenciam uns dos outros. Agora, o amar de formas diferentes não me faz amar uns menos ou mais que aos outros. Amo-os a todos com a mesma intensidade, com a mesma força e o mesmo sentido de incondicionalidade.

Não querendo julgar ninguém, faz-me realmente muita confusão aqueles pais que tornam tão visivel o facto de gostarem mais de um filho do que de outro e as diferenças que isso trás à forma como lidam com eles. Este facto não se reflecte só na forma como a criança preterida se sente, nem na relação que vai ter com os pais, reflecte-se tambem na forma como o filho preferido trata o filho preterido.

Lary disse...

muito bonitinho, tudo muito certinho, mas é o seguinte eu tenho 1 irmã mais velha e a amo mais do que qualquer coisa e acretido que a amo mais do que a minha própria mãe, quando eu nasci ela tinha 12 anos de idade e eu sempre pude e posso contar com ela para o que for, como meus pais sempre trabalharam com transporte escolar eles nunca estavam presentes quando eu precisava, e quando os via eles claramente me deixavam de lado e mostravam que eu não era bem vinda, e logo saiam de perto de mim pegavam as crianças pelas mãos e as tratavão da melhor forma possível todas as crianças e adolescentes que eles levavam para a escola, sempre tive uma relação estranha com a minha mãe, eu sempre via as mães dos meus amigos de sala irem para a reunião de pais e mestres menos a minha, as reunioes eram escritas nos meus cadernos para o responsável assinar, minha irmã, pois minha mãe nem queria saber o que tinha se passado, até hoje eu noto em pequenas coisas como eu sou tratada completamente diferente, meus pais ensinaram minha irmã andar de bidcicleta, mas parece que nunca quiseram ser vistos comigo, pois para passeios ou ferias eu os via preparando as malas deles e da minha irmã, e o olhar de tristeza dela arrumando a minha para eu ficar com a vizinha. Se na "teoria" vocês acham que um filho rejeitado se sente mal, então tentem se colocar no lugar dele.
Que há diferenças no amor dos pais para com os seus filhos isso não se discute, mas alguns podiam ao menos fingir que gostam do filho, imaginem como seu filho se sentiria ao escutar uma conversa aos 7 anos de idade que eles não foi planejado e foi a pior coisa que aconteceu na vida.
Então antes de escreverem coisinhas bonitinhas e fofinhas procurem realmente saber como é não ter o amor de um pai ou uma mãe, e o único que você conseguiu conquistar foi o da sua única irmã, a qual teoricamente poderia ter ciúmes, raiva ou ódio de você.
Claramente eu lembro te ter dito a minha mãe a seguinte frase:-Quando você vai morrer? mas isso só foi após eu ter ouvido ela dizer o que disse sobre mim.
Ah deixo bem claro que ela não foi vítima de estupro ou um relacionamento anterior, pois eu sou a cara do meu pai, outro que também não é muito chegado na filha que teve...